LOLLAPALOOZA DE CADEIRA DE RODAS SIM!

Por Mariana Costabille
Bom, como uma boa pessoa sedentária com vontade de mudar de vida, prometi no ano novo que 2018 seria diferente, que cuidaria mais do meu corpo, da minha espiritualidade, da minha mente e da minha saúde.

Era um domingo de sol finalzinho de janeiro, já nesse movimento resolvi que queria andar de bicicleta, enchi o saco do meu namorado ate que ele topou uma programação de domingo alternativa, ele mora pertinho de uma ciclovia e seria o programa ideal. Sai de bicicleta e ele de skate, dei uma voltinha no quarteirão com ela já sentindo as VIBES, solzão e ventinho no rosto, maravilha!!
Parei com a bicicleta na esquina pra esperar ele fechar o portão e darmos inicio ao momento fitness. Dei impulso com o pé direito mas virei o guidão pra mim, o que me fez esborrachar no chão com a bike em cima de mim e sentir uma pressão muito estranha no tornozelo.

Ali estatelada no chão senti que tinha alguma coisa errada, ouvi um barulho esquisito saindo dele e chegando no hospital descobri que o havia fraturado em 3 lugares e rompido dois ligamentos. Descobri também que nada de gesso, iria ser internada e direto pra cirurgia.
Assim foi, duas placas, uma de cada lado e alguns pinos por ali.

Nunca havia passado por uma cirurgia na vida, nem quebrado nada, no dia da operação minha amiga Pamela me disse que tudo aquilo ali seria historia pra contar. E é o que repeti na minha mente quase todos os dias nessa infinita recuperação pós cirúrgica. Foi aí que me dei conta de que iria perder o Lollapalooza, que em janeiro tinha combinado de ir com duas amigas no domingo porque caiu exatamente o que cada uma queria ver no mesmo dia, coisa do destino, um recado do Universo. Não tava afim de deixar de ir e minhas amigas disseram que eu poderia contar com elas e assim foi:

Já entrei no site do Lolla pra saber como funcionava pra galera PDC, nenhuma informação disponível, muito mal vi nos mapinhas dos shows anteriores a área reservada pra PDC, que parecia próxima do palco. Pesquisei horrores, encontrei um blog de um cadeirante que da diversos reviews sobre festivais, o nome é Mais uma Rodada e quem escreve é o Pedro Américo que foi a quem recorrei no Instagram via dm e muito me ajudou. Deixei também uma reclamação no Reclame Aqui sobre a falta de informação e logo me ligaram me esclarecendo algumas coisas.

Chegando no festival, no portão de numero 7 quem tem necessidades especiais tem direito a um translado num carrinho daqueles de golfe, teoricamente ate o primeiro palco de escolha e um acompanhante pode ir junto. Sim teoricamente porque esse carrinho não te leva realmente ate o palco, ele te deixa dentro do autódromo na parte asfaltada e ai o seu acompanhante é quem te empurra ate o palco de fato. E dois acompanhantes é algo que não existe, é um só de qualquer jeito mesmo com lugar sobrando no carrinho.

Migas inseparáveis que me carregaram por todos os lados.

 
O primeiro show que vimos foi o do Milky Chance, o autódromo ainda estava relativamente vazio, resolvemos ficar fora da área de PCD pra conseguirmos ficar as 3 juntas, porque assim como no transporte você também só tem direito a um acompanhante. O show foi ótimo mas como ficamos perto do palco não consegui enxergar nada porque estava sentada. As pessoas no geral foram bem educadas, quando percebiam que eu estava de cadeira de rodas costumavam tomar mais cuidado, claro que existem exceções que acabaram virando regra conforme o passar do dia e as cervejas na cabeça.

Nos shows que estavam mais lotados percebemos que era simplesmente IMPOSSIVEL chegar ate a área de PDC, era um mar de gente e como o lugar é todinho íngreme e de diferentes tipos de chão, ora barro, ora asfalto e ora grama, chegar nessa área era uma tarefa que simplesmente decidimos não fazer. Assistimos todos os shows afastadas do palco, o que também foi vantajoso justamente por ser íngreme, consegui ver mesmo sentada na cadeira.

Em dado momento do dia um bombeiro muito simpático nos viu no maior esforço pra sair de um palco e ir pro outro e nos ajudou, disse que se precisássemos novamente de ajuda poderia solicitar a eles que empurrassem a cadeira. Pensa num barranco cheio de barro, de pedras, e íngreme, era MUITO difícil empurrar a cadeira, tinha horas que a roda simplesmente travava e eu ia pulando de um pé só ate uma área um pouco menos zoada pra que a gente conseguisse se locomover. Em um momento de real desespero porque estávamos em um lugar dificílimo de passar pedimos ajuda de outro bombeiro, que nos negou e disse que o trabalho dele não era esse e sim salvar pessoas em perigo.

Eu e minha cadeira no solzão.

 

Na questão banheiro não tem muita alternativa, banheiro químico como todos os outros e mais largo pra vc conseguir empurrar a cadeira, mas não da pra manobrar ela dentro então basicamente também pulava pra entrar e sair da cabine.
Um adendo que preciso comentar aqui é que fralda não funciona, essa tecnologia é inútil. Não pensem nisso como uma possibilidade para verem o show mais esperado sem ter que sair pra ir no banheiro. (Não vou comentar muito sobre isso mas pra bom entendedor meia palavra basta).

O festival em termos de atração foi ótimo, já em termos de estrutura achei surreal que em um ingresso de 800 reais não exista uma maneira mais simples de fazer essa locomoção, imagino que criar uma estrutura que facilite seja algo bem caro de se fazer, mas com um ingresso tão salgado não sei se seria impossível. Pensei em mil alternativas, um caminho por trás dos palcos que facilite os trajetos e que leve ate a área PCD que é bem próxima dos palcos foi a melhor solução que imaginei. Se ao menos todos os bombeiros agissem como o primeiro imagino que teria sido bem mais fácil.

Felizes curtindo os shows!

Tenham amigas que realmente querem muito sua companhia, não vale aquela amiga que só e amiga na balada, tem que ser aquela amiga que aguenta passar perrengue exclusivamente por sua culpa.

Vale também dizer que não sou uma pessoa que tem experiência com a cadeira de rodas, as pessoas que vivem essa realidade todo o tempo conseguem se locomover com mais facilidade, mas acredito que seja impossível irem sozinhas, pelo menos no Lollapalooza.
O que ficou além da impressão parcialmente negativa do festival é a experiência de ter ido e visto tudo com outros olhos, na verdade muita coisa muda dentro da gente quando passamos por algo que põe em jogo nosso dia a dia da maneira como estamos acostumados. E de alguma maneira isso me aproximou ainda mais do meu objetivo de cuidar da minha mente, da minha espiritualidade e da minha saúde. Tudo que tenho feito nesse período de recuperação exige de mim uma concentração e foco exatamente no que estou fazendo naquele momento, e isso é algo que como uma boa ariana ansiosa quero levar pra vida.

Portanto tenham amigas que topem empurrar sua cadeira e se bater a duvida pensa que pode ser história pra contar. (Mas usem esse conselho com moderação).

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